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O mito do andador

Por que o brinquedo que promete acelerar a marcha pode estar fazendo o contrário.

Fisiovital Equipe Fisiovital · 14 de maio de 2026
O mito do andador

O mito do andador

Você lembra dos seus primeiros passos? Provavelmente não. Mas tem um anúncio do começo dos anos 2000 que se você é mãe ou pai brasileiro talvez lembre. Um bebê dentro de um andador rosa, andando “sozinho” pela sala, com o jingle alegre afirmando que o produto acelera o desenvolvimento da marcha.

Aquele comercial mentiu.

Não é um exagero retórico. A ciência da pediatria e da fisioterapia pediátrica é clara há pelo menos duas décadas: andadores não aceleram o desenvolvimento da marcha — em muitos casos, atrapalham. E o curioso é que essa informação ainda não chegou direito à maioria das famílias brasileiras.

O que o andador realmente faz

O bebê dentro do andador parece estar “andando”. Os pés batem no chão, ele se desloca, sorri. Funciona como ilusão visual.

Mas, na perspectiva motora, ele não está andando. Está sendo sustentado por um equipamento que distribui o peso pelos quadris e tronco — não pelas pernas. As pernas só impulsionam. O cérebro não está aprendendo o que precisa aprender pra andar de verdade: equilíbrio, transferência de peso, ajuste postural, planejamento motor.

É como tentar aprender a nadar com uma boia gigante atada ao corpo. O movimento parece nadar, mas o aprendizado real — sustentar o próprio peso na água, coordenar braços e pernas, respirar no ritmo — não acontece.

A literatura é clara

Estudos sistemáticos publicados nas duas últimas décadas mostram que:

  • Bebês que usam andador costumam andar mais tarde que os que não usam
  • A postura em “ponta de pé” estimulada pelo andador pode persistir após o bebê deixar de usá-lo
  • O risco de acidentes domésticos é alto — quedas em escadas, esbarrões em móveis, acesso a objetos perigosos
  • Em vários países (Canadá desde 2004, por exemplo) o andador foi banido por lei

A Sociedade Brasileira de Pediatria publicou nota técnica em 2017 desaconselhando explicitamente o uso de andadores. A American Academy of Pediatrics faz o mesmo desde os anos 1990.

Por que o mito persiste

Algumas hipóteses:

  • Marketing antigo que ainda ressoa na cultura familiar (vó, tia, vizinha indicando)
  • Praticidade real — andador mantém o bebê ocupado e seguro do ponto de vista da supervisão
  • Aceleração ilusória — pais querem ver progresso e o andador “mostra” progresso visualmente

Nenhuma dessas razões é justificativa científica. São razões de conveniência ou cultural — não razões de desenvolvimento.

E o jumper, o exersaucer, o “centro de atividades”?

Os primos do andador. Mesmos problemas, em variações.

  • Jumper (aquele que pendura no batente da porta): estimula posição vertical antes do tempo, sobrecarrega quadril
  • Exersaucer / centro de atividades estático: melhor que andador porque não permite deslocamento, mas ainda mantém o bebê numa postura artificial por longos períodos
  • Mesinha de atividade em pé depois que o bebê já consegue ficar em pé sozinho: aí sim, OK, dá apoio sem suportar peso

A regra geral é simples: antes de andar, o bebê precisa de chão.

O que ajuda de verdade

Pra desenvolver a marcha, o bebê precisa de:

  • Espaço pra explorar — chão livre, superfície grande, brinquedos espalhados
  • Tempo de barriga pra baixo desde recém-nascido
  • Liberdade pra cair, errar, ajustar — sem ser “salvo” toda hora
  • Móveis na altura certa pra ele se puxar pra cima (“cruise walking” — andar lateral segurando o sofá)
  • Modelo motor — você caminhando perto, oferecendo a mão quando ele quer

Sem brinquedo caro. Sem aparelho. Sem aceleração. Só chão, tempo e seu olho atento.

Se você já usou (ou está usando)

Sem culpa. A maioria das famílias usou em algum momento — porque ninguém te contou. Agora você sabe.

Se está usando: tente reduzir o tempo, oferecer mais alternativas no chão, e observar se a postura “ponta de pé” não está se tornando padrão. Se notar, vale conversar com fisioterapeuta pediátrico.

E se o seu filho usou andador no passado e hoje anda bem: ótimo. A capacidade adaptativa do desenvolvimento infantil é enorme. Andador atrapalha em média — não condena ninguém.

Resumindo

O andador não acelera a marcha. Atrasa. Em muitos casos, distorce a postura. O bebê precisa de chão, não de cadeira com rodas.

Cada passo errado, cada queda controlada, cada tentativa frustrada — tudo isso é parte do que ensina o cérebro a caminhar.

Confia no chão. Confia no tempo do seu filho.

Fontes

  • Sociedade Brasileira de Pediatria — Nota Técnica sobre uso de andadores (2017)
  • American Academy of Pediatrics — Policy Statement on baby walkers (2001, atualizado 2018)
  • Garrett, M. et al. — Locomotor milestones and babywalkers, 2002
  • Burrows, P., & Griffiths, P. — Do baby walkers delay onset of walking in young children?, 2002

Esse texto é um ensaio de opinião editorial baseado em evidência científica. Não substitui orientação profissional individual.